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Como nasceu "Quem és tu diante da Água?"

  • 9 de mar.
  • 5 min de leitura

Atualizado: 10 de mar.

Fui ao rio pedir que levasse de mim o que não prestava e levei foi um esporro.


JuKa Ladeira Quem és tu diante da Água

Eu estava exatamente como na foto: Invertebrada, decepcionada, tentando entender se tinha sido em vão participar de mais uma cerimônia conduzida pelo extraordinário povo Yawanawá. Nenhuma das minhas expectativas havia sido atendida, talvez por serem muitas.


Consagrei três doses da medicina Ayahuasca, mas durante toda a cerimônia eu não vi e nem ouvi nada relacionado ao que fui buscar. Por volta das 07h do dia 19 de outubro de 2025, começaram a servir a medicina Rapé, e isso anuncia que a cerimônia está chegando ao fim. Era a sexta cerimônia que eu participava, e em apenas uma delas tentei receber o Rapé, mas não consegui. Decidi tentar novamente e, finalmente, mesmo com dificuldade, deu certo. Alguns minutos depois, senti vontade de ir ao Rio que fica no local.


Sentei em uma pedra, retirei as sandálias, mergulhei os pés e as mãos, e pedi ao Rio que levasse de mim tudo o que não prestava: as mágoas, os medos, os pensamentos repetidos, o peso das vontades e a revolta — principalmente a revolta — por ter perdido, há poucos meses, o meu cachorro Ganesha, de apenas quatro anos, para a própria Natureza. Ela, que o tirou de mim bruscamente porque ele decidiu, tão inocentemente, brincar com um sapo. Eu “escolhi” morar em Aldeia, no meio do mato, em uma casa com espaço grande e com grama, justamente para Ganesha ter mais liberdade e mais vida. Ironicamente, em menos de dois meses neste ambiente, ele perdeu o Ar e virou pó. Eu estava, confesso, exigindo da Natureza uma justificativa.


Foi então que o Rio começou a falar. Não com som, mas com presença. Através dele, a Natureza começou a me mostrar a sua grandeza e, por consequência, a minha pequenez e presunção. E eu compreendi, sem resistência, que não sou nada diante dela; apenas uma pequena parte dela mesma.

 

O Rio:

 

Percebes que tu não me atravessas; sou eu quem te atravesso? Pensas que me possuis, pequena? Logo eu, que te dou forma? Tu és feita de mim, mas não me controlas. É impossível dominar o meu fluxo. Desapega-te da ilusão de responsabilidade pela transformação inevitável; afinal, estás dizendo que trouxeste Ganesha para a Natureza, mas não teria sido ele quem te moveu para cá? Nem tudo é sobre ti, nem se curva ao teu querer.

 

Depois desse esporro, percebi que a Natureza não sussurra em uma só voz. Outros elementos queriam se manifestar, então me rendi e fechei os olhos para ouvi-los.

 

Quem és tu diante da Água? Que te sustenta desde o nascimento e te carrega até o fim? Tu tentas contê-la em copos, canaletas e represas, mas esqueces que ela também corre em tuas veias, e que, quando ela seca em ti, teu corpo se decompõe. És feita dela, e ainda assim acreditas que pode dominá-la? Ela te obedece por instantes, mas, no tempo dela, és tu quem se dissolve.


Quem és tu diante do Fogo? Tu o acendes para enxergar, mas cega se o olhar fixamente. Tu o invocas para aquecer, mas ele te consome quando o exaltas. O Fogo é o espelho do teu ego: brilha quando está no centro, mas tudo destrói quando quer ser o sol.


Quem és tu diante do Ar? Ele entra em ti sem pedir licença e faz exatamente — e somente — o que é para ser feito. Tu o respiras, mas não o possuis. Ele te envolve, te dá voz, e ainda assim não o vês. Ele não precisa ser visto para existir e executar com sabedoria o seu papel.


E a Terra? Quem és tu diante da Terra? Ela te recebe como mãe, te sustenta como abrigo e te devora como destino. Tu te crês dona do solo, mas é o solo quem te herdará no fim.


Quem és tu, ser de carne e tempo, que busca controlar o que a criou? Te embriagas com a ilusão do poder sobre o amanhã, mas ele não faz parte do teu patrimônio. O amanhã é uma miragem; um reflexo do desejo ridículo de posse. Quando pensas que vai alcançá-lo, mais rápido que a velocidade da luz ele se torna passado.

 

Então, silencia.

Observa.

Sente.

Aprende.

Aceita, Juliana.

 

Não te rebeles contra o fluxo porque, se o Rio não teme a curva, o Fogo não teme o vento, o Ar não teme o vazio e a Terra não teme o fim, quem és tu, pequena? Tu não estás acima, estás dentro, e o que está dentro de ti nem é teu; é emprestado.

 

Confesso que me espantei com a indiferença do Rio sobre o que eu sentia. Eu esperava consolo, não ser induzida à compreensão de que sou feita de tudo um pouco, mas o tudo não sou eu. Que tudo existe em mim, mas facilmente sem mim. Que, se nem o meu corpo será para sempre meu, como Ganesha seria?


Fiquei pensando se era exatamente essa a mensagem: viver sabendo que nada me pertence, enxergar a beleza disso, aceitar, agir com respeito e humildade diante da vida incontrolável.


A Água, o Fogo, o Ar e a Terra, os verdadeiros superiores, sabem que dependem uns dos outros. A Água não nega o Ar que a movimenta. O Fogo sabe que, sem o Ar, ele apaga. A Terra se transforma em lama, em raiz e em vida quando a Água a toca. Eles não disputam poder; eles se misturam.


E assim, num estalo, eu tirei o foco de mim — que, minutos atrás, era uma vítima da Natureza — e perguntei: e nós? Por que insistimos em não nos misturar? Por que acreditamos que ser inteiro é estar acima, quando, pelo que estou entendendo, ser inteiro é pertencer?


Esse instante me tirou do centro para que eu entendesse que as lições que chegam pela dor não são propriedade privada de quem as recebe. Que o sentido de pertencer é compartilhar. Nas cerimônias anteriores, a Ayahuasca sempre me empurrava para fora de mim: para a empatia, para a alteridade, para enxergar a sua beleza, a do outro… Eu sempre saía um tanto confusa. Até que, naquela manhã, a mensagem veio inteira, absoluta, e trouxe uma ordem que não deixava espaço para hesitação:


Chega de lamúria, criatura, pois há muito mais que o teu pranto; há um todo pulsando que te inclui.


Foi o suficiente para que minha mente entrasse em um estado de fluxo ininterrupto por sete dias. Nada me desviou da urgência de colocar em palavras o que me atravessou.

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