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O ser humano, presunçoso, acreditando ser o topo da cadeia alimentar, não percebe que está sendo apenas temperado com o tempo para ser servido — e sem aviso — de banquete à Terra.

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FOI BEM ASSIM QUE ELE NASCEU

Naquela manhã, 19 de outubro de 2025, decidi caminhar até o Rio após a cerimônia. O corpo ainda leve, mas com a mente irritada por não ter visto nem ouvido nada — mesmo depois de consagrar três doses da medicina Ayahuasca.

Retirei as sandálias, sentei numa pedra em sua margem, deixei meu corpo invertebrado para mergulhar os pés e as mãos, repousei a cabeça no joelho e rangia os dentes com a Água fria e viva.

Foi como se o tempo tivesse parado de repente para que eu pudesse sentir apenas a presença do presente. E eu fiquei ali, pedindo. Pedindo que o Rio levasse de mim tudo o que não prestava: as mágoas, os medos, os pensamentos repetidos, o peso das vontades e a revolta — principalmente a revolta — por ter perdido, há poucos meses, meu filhote peludo Ganesha, de apenas quatro anos, para a própria Natureza. Ela, que o tirou de mim bruscamente porque ele decidiu, tão inocentemente, brincar com um sapo. Eu “escolhi” morar em Aldeia, no meio do mato, em uma casa com espaço grande e com grama, justamente para Ganesha ter mais liberdade e mais vida. Ironicamente, em menos de dois meses neste ambiente, ele perdeu o Ar e virou pó.

Foi então que o Rio começou a falar. Não com som, mas com presença. Através dele, a Natureza começou a me mostrar a sua grandeza e, por consequência, a minha pequenez e presunção. E eu compreendi, sem resistência, que não sou nada diante dela; sou apenas uma pequena parte dela mesma.

 

O Rio:

 

Percebes que tu não me atravessas; sou eu quem te atravesso? Pensas que me possuis, pequena? Logo eu, que te dou forma? Tu és feita de mim, mas não me controlas. É impossível dominar o meu fluxo. Desapega-te da ilusão de responsabilidade pela transformação inevitável; afinal, estás dizendo que trouxeste Ganesha para a Natureza, mas não teria sido ele quem te moveu para cá? Nem tudo é sobre ti, nem se curva ao teu querer.

 

Depois desse esporro, percebi que a Natureza não sussurra em uma só voz. Outros elementos queriam se manifestar, então me rendi e fechei os olhos para ouvi-los.

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