Ayahuasca, Flow e Expansão da Consciência
- 6 de mar.
- 5 min de leitura
Atualizado: 17 de mar.
Quando o conhecimento encontra passagem: flow, consciência e as fontes de Quem és tu diante da Água?

Há algo curioso sobre escrever em estado de flow: quando a obra termina, às vezes o próprio autor se surpreende com o que escreveu.
Foi exatamente o que aconteceu comigo. Quem és tu diante da Água? foi escrito em apenas sete dias. Quando terminei, não tive tempo de analisá-lo como escritora. Eu simplesmente li. Li como leitora e, confesso, foi estranho. Em alguns trechos eu até chorei.
Mas, eu não chorei enquanto escrevia. Como pode?
Durante a escrita eu estava em um estado quase automático, como se apenas acompanhasse o fluxo de algo que já estava pronto em algum lugar da minha mente. Um exemplo claro foi o capítulo “As Cinzas da Verdade”. Ao reler, senti o peso emocional daquela passagem como se estivesse lendo o texto de outra pessoa. Fiquei mal por dois dias, até que decidi devolver as cinzas de Ganesha à Natureza.
Quando enviei o livro para alguns amigos, todos disseram praticamente a mesma coisa: “Esse livro é você.” Eles reconheceram ali ideias que eu vinha discutindo há anos em conversas, reflexões e questionamentos. Foi então que decidi fazer uma segunda leitura, e foi nessa que tudo mudou. Dessa vez eu não li como leitora emocionada, nem como escritora avaliando o texto; eu li como investigadora de mim mesma.
Trecho por trecho, comecei a lembrar de onde havia tirado cada conceito, cada reflexão, cada metáfora, e percebi algo curioso: quase nada havia surgido ali pela primeira vez. Aquelas ideias vinham sendo alimentadas dentro de mim há mais de uma década, mas era para outro projeto literário...
Uma conversa antes da cerimônia
Antes de participar da cerimônia no dia 18 de outubro de 2025, tive uma conversa por telefone com minha amiga Kamile. Eu estava atravessando um momento emocional difícil pela perda de Ganesha e, ao mesmo tempo, carregava uma inquietação antiga: minha dificuldade em manter foco suficiente para concluir projetos literários.
Lembro de ter dito a ela que eu queria tentar acalmar meu coração, pois além do luto por Ganesha, neste mesmo dia — 18 de outubro de 2025 — completava 25 anos que minha mãe Yara Ladeira havia falecido. Quem sabe eu poderia receber alguma mensagem dela ou sobre ela? Também queria entender por que eu começava tantos projetos e não me disciplinava para finalizá-los. Ou seja, eram muitas expectativas para uma cerimônia só. Foi então que ela disse:
“De repente, o que você tem que escrever não é pra sair de você, mas através de você.”
Naquele momento achei apenas uma frase bonita, mas dias depois, quando finalizei o livro, tive exatamente essa impressão. A sensação não era de que eu havia criado aquelas ideias ali. Era como se muitas coisas que eu já havia estudado, pensado e observado ao longo dos anos simplesmente tivessem encontrado um caminho para se organizar.
O arquivo invisível da mente
Desde 2013 eu estudo os elementos da natureza para outro projeto completamente diferente: um obra animista, filosófica e cômica. Nada a ver com Quem és tu diante da Água.
Mas, ao revisitar o livro, percebi que esse projeto anterior havia construído dentro de mim um verdadeiro arquivo invisível. Sou o tipo de pessoa que arruma a casa ouvindo documentários ou audiobooks, e tenho uma mania: quando gosto muito de algo, assisto dezenas ou até centenas de vezes. Um exemplo é a série Como Funciona o Universo; quase todas as noites eu a coloco na TV do quarto para dormir e acordo com ela ainda rodando. Outras séries que ocupam metade da minha vida: One Strange Rock, Alienígenas do Passado, Cosmos: Mundos Possíveis, Mistérios da Bíblia e a Bíblia Proibída, Conectados: A Ciência Oculta de Tudo... São séries que me fascinam porque exploram temas como: a origem do universo, evolução da vida, história das civilizações, os mistérios das religiões, as conexões entre ciência, natureza e espiritualidade.
Flow, consciência e preparação
Muitas pessoas descrevem a medicina Ayahuasca como uma experiência de expansão da consciência.
Nas tradições indígenas amazônicas, ela é frequentemente chamada de “medicina” justamente porque não é vista apenas como uma substância, mas como um instrumento de aprendizado e ampliação da percepção.
Nos últimos anos, pesquisadores também passaram a investigar seus efeitos no cérebro. Alguns estudos sugerem que a Ayahuasca pode aumentar a comunicação entre áreas cerebrais que normalmente não interagem com tanta intensidade no estado comum de vigília. Em outras palavras, regiões da mente que costumam funcionar de maneira mais isolada passam a se comunicar.
Esse tipo de reorganização momentânea da atividade cerebral pode explicar por que muitas pessoas relatam:
lembranças esquecidas voltando com clareza
conexões inesperadas entre ideias
insights profundos sobre experiências da própria vida
e a sensação de acessar camadas da mente que normalmente permanecem silenciosas
Eu não tenho a pretensão de explicar cientificamente o que acontece, mas durante a escrita do livro tive a impressão muito clara de que muitas ideias que antes estavam fragmentadas começaram a se organizar. Como se as peças de um quebra-cabeça que estavam espalhadas ao longo de anos de leituras, documentários e reflexões finalmente encontrassem seus lugares.
Tive também a sensação de que a medicina Rapé, de alguma forma, ajudou a integrar mensagens que recebi nas cinco cerimônias anteriores, e que antes eram memórias dispersas.
Eu sei que o estado de flow surgiu. Durante sete dias, escrever parecia tão natural quanto respirar. As ideias simplesmente vinham sem nenhum esforço e sem planejamento, como se o texto já existisse e eu apenas estivesse transcrevendo.
Durante anos carreguei uma frustração silenciosa: eu começava muitos projetos literários, mas raramente conseguia concluí-los. Curiosamente, faço exatamente aquilo que praticamente todos os especialistas em escrita recomendam evitar: sempre que abro um projeto antigo, começo relendo tudo desde o início.
Pode parecer algo inofensivo, mas quando o texto já tem cem páginas ou mais, essa releitura consome toda a energia criativa. Quando raramente alcanço o ponto onde havia parado, minha vista já está cansada, a mente saturada e o impulso de continuar simplesmente desaparece. Ou seja: quase nunca chego ao momento de escrever o próximo capítulo.
Há ainda outro fator: a maioria dos meus projetos envolve curiosidades, reflexões e conexões entre diferentes áreas do conhecimento. Como estou sempre estudando algo novo — seja em livros, documentários ou pesquisas — acabo voltando ao texto para acrescentar alguma ideia, ajustar uma informação ou expandir um trecho.
E assim o ciclo se repete. Releio, ajusto, acrescento, mas raramente avanço.
Com Quem és tu diante da Água? foi completamente diferente. Em nenhum momento voltei para reler um único parágrafo. Eu simplesmente escrevia. Foi a primeira vez que experimentei esse tipo de fluxo.
Canal, não protagonista
Durante a experiência no rio, recebi um verdadeiro “esporro” da natureza. Mas, ao revisitar essa experiência depois, também percebi algo importante: não gosto da ideia de que alguém tenha sido “escolhido” para transmitir uma mensagem. Essa interpretação facilmente escorrega para a presunção. O que me parece mais honesto é pensar de outra forma: talvez as mensagens tenham encontrado passagem porque eu já carregava dentro de mim muitos dos elementos necessários para compreendê-la.
Talvez minha maior surpresa tenha sido perceber, depois de tudo, que a obra não nasceu em sete dias; ela nasceu ao longo de anos de curiosidade insaciável. De perguntas, leituras, documentários assistidos repetidas vezes, conversas, experiências...
Talvez seja isso que acontece quando entramos em um verdadeiro estado de flow; Não estamos exatamente criando algo do zero, estamos apenas abrindo a comporta de um rio que já vinha correndo dentro de nós há muito tempo.
Talvez escrever seja apenas isso: permitir que o conhecimento que atravessou nossa vida encontre um leito por onde correr. Eu entendi que, diante da Água, eu não era autora; eu era passagem.


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